1 de março de 2012

O mistério dos copos que se quebram sozinhos

"Oh, não fique assim! Considere como você e uma garota de valor!
Considere todo o caminho que percorreu até hoje! Considere que horas são...
Considere qualquer coisa, mas não chore!"

Lewis Carrol



Eu sou a típica azarada que sempre que mora numa casa e inventa de lavar ou secar louça, vai quebrar um copo. Vou encostar sem querer, na maior das boas intenções e trazer terror e destruição. Ok que não é todo esse drama, porque é só um copo. Mas invariavelmente acontece... e dói no fundo do meu ser estabanado o fato de ter provocado mais um acidente do mesmo tipo num novo lar.

Isso é tão fichinha perto das outras coisas que sou capaz de destruir e é tão exemplar do meu cu virado pra qualquer lugar que não seja a lua. Apesar de me entregar e tentar dar tudo de mim nas coisas, tem épocas que elas simplesmente não funcionam. Tenho a impressão que chega um momento que o copo não é quebrado e todo o resto trava. É como se tudo tivesse concentrado ali naquele recipiente simbólico, esperando só o momento da quebradeira real e definitiva.

Eu não me considero uma mulher notável por beleza, inteligência ou simpatia. Eu não sou a melhor das amantes, a mais cuidadosa, a perfeita. Nunca fui, estou certa que nunca serei, mas confesso que tento. E quando tento, rola com todas as forças, a ponto de colocar a vida inteira em jogo. De abrir mão do que for preciso, de ceder em muitas coisas, de mudar comportamentos, de se jogar e acreditar que é o jeitinho que tô fazendo que vai abrir o portal mágico da realização dos ideais esperados, onde todas coisas funcionam bem de verdade. Afinal, a gente tem o poder de fazer acontecer sempre ao nosso alcance, não é mesmo? Não muito.

Às vezes, acontece bem diferente das expectativas. Eu vou insistir por brasilidade indeed, fato. Mas se não tiver jeito mesmo, é preciso forçar a aplicação da política do desapego. Antes chore, esperneie, bata a cabeça na parede... Mas se não dá mais, desapegue. Pra mim, vão-se crenças, esperanças, vontades, sonhos, planos, fé e até amor. É abrir mão da vida, em tudo que ela significa. A dor é de morte.

Por essas e outras que talvez seja só melhor eu permanecer longe dos copos. Eu tento acreditar que, algum deles, um dia vai ser resistente a ponto de ser inquebrável. Mas, no fundo, eu tenho aquela desconfiança de que a estrutura não vai aguentar. Mesmo que eu não provoque o desastre, eles vão se quebrar sozinhos, até sem toque de gente. É da dinâmica da vida e dos vidros, faz parte. Eternidade nunca foi o forte dos seres humanos, por que seria das nossas coisas?

Em julho de 2011, quando constatei toda essa bagaça, quebrei meu último copo com a mesma técnica ninja de tentar fazer bem pra ele.
 

Melhor mesmo é não lavar louça.

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