7 de agosto de 2011

A beleza que não está nos olhos de quem se vê

“A moça feia debruçou na janela
Achando que a banda tocava pra ela”
Tio Chico


Você sai do “primeiro mundo” diretão pro cof cof cu do mundo. Seu cabelo reclama do tempo úmido e faz questão de armar a Revolta dos Fios Rebeldes, inimigos de pé em protesto constante. Sua pele do rosto clama por secura, porque “se não, ó essa espinha aqui que eu ponho no meio da bochecha pra você aprender”. O nariz é um dos únicos que só tem a agradecer pela umidade presente. Bora lá, botar o mulherão completo que há dentro de você pra funcionar. Cozinhar, ajeitar a casa, fazer mercado, correr na lan e freelar em casa. Esperar o homem chegar do trampo, com o máximo de beleza natural que é possível preservar a cada dia, e cobrí-lo de mimos e amores. Beleza.

Depois de uns dias, você se olha no espelho, o cabelo tipo grevista, firme no rebelde style, o rosto até ameaçando por ruga na jogada, o corpo cansado... Falta o momento da maquiagem for real, de puxar o cabelo pra domar os fios, de subir no salto e se encher de acessórios, de emperiquitar-se toda e sair de casa segura de si, se achando. De fugir do natural, de ser um pouco artificial, sabe? Faz bem isso. O espelho que o diga. Não precisei nem pensar muito... ele já tava lá proclamando com berros: FEIA!

Não curto muito conversar com espelho nessas horas. Só abaixo a cabeça e vou cuidar de outras coisas, pra nem ouvir nos desaforos que ele vai continuar gritando do banheiro (certeza que rolou de baranga pra baixo). Bicho esgoto do baralho. À noite, talvez eu reflita. Mentira, com certeza eu vou ficar maluca com a feiúra pronunciada martelando na cabeça. Aquela coisa vai abater um cadinho e deixar a autoestima baixar. O gato vai acariciar o seu ego de todas as formas que já inventaram no universo. Ajuda, mas não resolve. O negócio é tentar virar o jogo contra o maldito espelho. Nada resiste ao julgamento matador que vem dos nossos próprios olhos.

Eu poderia fechar aqui agora com super lição de revista feminina, aquela dica precious para dar um up no seu período de mal com sua aparência, dizendo como eu atravessei esse momento horroroso da minha vida e cheguei até aqui, ó amigos leitores que vivem os mesmos dramas que eu. Mas não. Eu não tenho solução pra isso... e nem pra um monte de coisa. Eu não sei resolver, mas sei das minhas vontades. Ajuda? Ainda quero meu cabelo sedoso e no estilo Bündchen (tenho ódio dos tamanhos intermediários, tipo o de agora, que não tá nem massa recém corte nem massa uh la la cabelo longo bonito), meu rostinho lisinho como bumbum de neném, minhas unhas feitas durando 5 dias, que seja. E o corpo de Juliana Paes retocado por photoshop, claro... mas isso sempre foi projeto a longo prazo.

Essa bagaceira me fez refletir como esse negócio de ser bonito se grudou ao estar bem. Quem foi que inventou de uma coisa depender da outra? E aí, eu escrevi um tratado de verdade, só que no moleskine. O conteúdo passa pela quantidade de gentilezas que se recebe diretamente proporcional ao tamanho do decote, passa pelas crianças invisíveis na puberdade se lhes faltam peitos ou músculos, passa pelo fato dos bebês morenos não serem dignos de inclusão em publicidade de papel higiênico ou leite. Como aqueles conceitos (hoje aparentemente antiquados e conservadores, além de altamente questionáveis) de moral e bons costumes - assim, tão juntinhos que quase um só - têm tudo a ver com o “bom dia” que eu não recebo com minha juba desgrenhada e vestida de crente assembleiana tradicional, mesmo que eu entre na loja sorrindo, pedindo interação.

Escrevi tanto no papel que não tenho coragem de expor tudo aqui. É daqueles tipos de textos gigantescos que questionam demais, que a internet exorciza prontamente. Coisa de gente chata. Daí, como eu finjo que sou legal prefiro passar por cima, fazendo referência a um dos primeiros episódios de Sex and The City, o Mortals and Models, que fala dos modelizers. O final (que não vou contar, dessa vez - lucky you!) é semelhante ao diálogo que compartilharam comigo outro dia, de uma banda que foi gravar um clipe e uma das integrantes do grupo, que estava no período pós parto recente, declarou algum desconforto pelo próprio visual descuidado.

- E aí, você quer marcar a gravação para outro dia? Quer que a gente dê um tempo para você se ajeitar?
- Naaah, que isso. Depois de ter filho, cara, só me importa que isso aqui seja divertido... Eu só quero que as coisas sejam divertidas.

Bonita.

Então, né: enjoy it.


“Isso são grains de beauté
Que aqui estão pra ajudar você
A encontrar o caminho de casa”
Céu

Nenhum comentário: