25 de agosto de 2011

Sabe o que é? É que num tem

"Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus."
Carlos Drummond de Andrade


Era uma vez, um lugarzinho no começo do nada, com cor de chocolate, cheiro de terra molhada... ah, de esgoto e suor também. Cidade do “num tem”. Num tem internet nas casas (nem com 3G), num tem sinal nos celulares, num tem pão na padaria, num tem biblioteca, num tem escola boa, num tem água transparente nas torneiras, num tem político do bem, num tem vigilância sanitária, num tem gente educada, bom atendimento e disposição para trabalhar, num tem entretenimento. Quase num tem vento. Mas ainda acho que pior mesmo é que num tem estrada decente que te leve para Num Tem.

Tem chuva, tem terra, tem buraco, tem bandido, tem puta, tem igreja, tem pastor exorcizando puta, tem tecnobrega, tem arara, macaco louco e tatu, tem floresta amazônica. Tem pizza de calabreza da batavo, tem ades sabor cereal com mel, tem açaí (com ou sem doença de chagas, diria o gato), tem comida industrializada vencida, mas tem peixe e camarão frescos. E, surpreendam-se, tem como viver bem em Num Tem.

Antes é preciso passar por um processo de desapego do que se tem quando não se vive em Num Tem. Tentar compreender que os nativos nunca nem souberam o que é ter. Torcer para o asfalto chegar no caminho, para que deixem de num ter mais rápido. Segurar o emputecimento crescente pelo governo de Nada que esquece do norte, que descuida dos começos e dos fins, que não pensa nas beiradas (que, cá pra nós, deveriam ter, no mínimo, recheio de cheddar ou de catupiry. Não, num tem).

Um dia, Num Tem talvez mude de nome. Enquanto isso, é respirar fundo e usar o superpoder liviano de adaptação. E meditar um bocado a cada constatação da ausência das coisas, sempre tão bem pronunciada.

Auuum.

7 de agosto de 2011

A beleza que não está nos olhos de quem se vê

“A moça feia debruçou na janela
Achando que a banda tocava pra ela”
Tio Chico


Você sai do “primeiro mundo” diretão pro cof cof cu do mundo. Seu cabelo reclama do tempo úmido e faz questão de armar a Revolta dos Fios Rebeldes, inimigos de pé em protesto constante. Sua pele do rosto clama por secura, porque “se não, ó essa espinha aqui que eu ponho no meio da bochecha pra você aprender”. O nariz é um dos únicos que só tem a agradecer pela umidade presente. Bora lá, botar o mulherão completo que há dentro de você pra funcionar. Cozinhar, ajeitar a casa, fazer mercado, correr na lan e freelar em casa. Esperar o homem chegar do trampo, com o máximo de beleza natural que é possível preservar a cada dia, e cobrí-lo de mimos e amores. Beleza.

Depois de uns dias, você se olha no espelho, o cabelo tipo grevista, firme no rebelde style, o rosto até ameaçando por ruga na jogada, o corpo cansado... Falta o momento da maquiagem for real, de puxar o cabelo pra domar os fios, de subir no salto e se encher de acessórios, de emperiquitar-se toda e sair de casa segura de si, se achando. De fugir do natural, de ser um pouco artificial, sabe? Faz bem isso. O espelho que o diga. Não precisei nem pensar muito... ele já tava lá proclamando com berros: FEIA!

Não curto muito conversar com espelho nessas horas. Só abaixo a cabeça e vou cuidar de outras coisas, pra nem ouvir nos desaforos que ele vai continuar gritando do banheiro (certeza que rolou de baranga pra baixo). Bicho esgoto do baralho. À noite, talvez eu reflita. Mentira, com certeza eu vou ficar maluca com a feiúra pronunciada martelando na cabeça. Aquela coisa vai abater um cadinho e deixar a autoestima baixar. O gato vai acariciar o seu ego de todas as formas que já inventaram no universo. Ajuda, mas não resolve. O negócio é tentar virar o jogo contra o maldito espelho. Nada resiste ao julgamento matador que vem dos nossos próprios olhos.

Eu poderia fechar aqui agora com super lição de revista feminina, aquela dica precious para dar um up no seu período de mal com sua aparência, dizendo como eu atravessei esse momento horroroso da minha vida e cheguei até aqui, ó amigos leitores que vivem os mesmos dramas que eu. Mas não. Eu não tenho solução pra isso... e nem pra um monte de coisa. Eu não sei resolver, mas sei das minhas vontades. Ajuda? Ainda quero meu cabelo sedoso e no estilo Bündchen (tenho ódio dos tamanhos intermediários, tipo o de agora, que não tá nem massa recém corte nem massa uh la la cabelo longo bonito), meu rostinho lisinho como bumbum de neném, minhas unhas feitas durando 5 dias, que seja. E o corpo de Juliana Paes retocado por photoshop, claro... mas isso sempre foi projeto a longo prazo.

Essa bagaceira me fez refletir como esse negócio de ser bonito se grudou ao estar bem. Quem foi que inventou de uma coisa depender da outra? E aí, eu escrevi um tratado de verdade, só que no moleskine. O conteúdo passa pela quantidade de gentilezas que se recebe diretamente proporcional ao tamanho do decote, passa pelas crianças invisíveis na puberdade se lhes faltam peitos ou músculos, passa pelo fato dos bebês morenos não serem dignos de inclusão em publicidade de papel higiênico ou leite. Como aqueles conceitos (hoje aparentemente antiquados e conservadores, além de altamente questionáveis) de moral e bons costumes - assim, tão juntinhos que quase um só - têm tudo a ver com o “bom dia” que eu não recebo com minha juba desgrenhada e vestida de crente assembleiana tradicional, mesmo que eu entre na loja sorrindo, pedindo interação.

Escrevi tanto no papel que não tenho coragem de expor tudo aqui. É daqueles tipos de textos gigantescos que questionam demais, que a internet exorciza prontamente. Coisa de gente chata. Daí, como eu finjo que sou legal prefiro passar por cima, fazendo referência a um dos primeiros episódios de Sex and The City, o Mortals and Models, que fala dos modelizers. O final (que não vou contar, dessa vez - lucky you!) é semelhante ao diálogo que compartilharam comigo outro dia, de uma banda que foi gravar um clipe e uma das integrantes do grupo, que estava no período pós parto recente, declarou algum desconforto pelo próprio visual descuidado.

- E aí, você quer marcar a gravação para outro dia? Quer que a gente dê um tempo para você se ajeitar?
- Naaah, que isso. Depois de ter filho, cara, só me importa que isso aqui seja divertido... Eu só quero que as coisas sejam divertidas.

Bonita.

Então, né: enjoy it.


“Isso são grains de beauté
Que aqui estão pra ajudar você
A encontrar o caminho de casa”
Céu

1 de agosto de 2011

As pérolas do Animamundi 2011

"Just stay there, 'cause I'll be comin' over
And while our bloods still young, it's so young, It runs
And we won't stop til it's over
Won't stop to surrender
The temper trap


Desde 2005, quando ainda era uma pequena gafanhota e senti essa vontade louca de trabalhar com animação crescendo dentro em mim, virei ratinha de Animamundis.

Nos 6 anos seguintes, até nos festivais em que tive a chance de ser monitora de oficinas no Rio, não resisti à tentação de ser público para me encher de inspiração em Sampa. A-do-ro! Quem me conhece sabe que é só me jogar ali no Memorial da América Latina nesse período do ano que uma alegria instantânea toma conta do meu ser. :)

Hoje, eu percebi que nunca tinha animado meu tratado com essas belezuras fofas e fodas que costumo ver e só enviar pros miguxos ou postar em blogs pagos. Daí, pensei "por que não?".

Quero compartilhar coisa boa! Não vi tudo, mas catei alguns links dos filmes que mais me chamaram atenção. A lista completa dos curtas selecionados para o festival deste ano está no site oficial. Eu entendo que nem todo mundo é anima freak que vai se empolgar horrores e ver cada um dos vídeos que fiz questão de colocar nessa listinha aqui... mas, vai que, né?

Espero que curtam!

Paths of Hate - trailer
Arte fodástica, com desenhos detalhadíssimos e animação bem feita.






Honda The Dream Comes True
Estava nas sessões de Portfólio. Fodástico!






Ormie
Precioso da sessão infantil, que merece ser visto aqui.


Trois Petits Points
O estilo do desenho lembra A quoi ça sert l'amour, um dos meus curtas preferidos. É mais uma obra de arte da Gobelins.







Thought of you
Rolou uma rotoscopia aí, com certeza. É tão lindo (apesar do final que deixa as meninas todas contrariadas, haha) que não tenho muito o que falar.







Birdboy - trailer
Estranhíssimo, mas uma poesia só. Bora esperar um pouco mais para ver completo na internet.







Big Bang Big Boom
Coisa do Blu, trabalheira do baralho, pra variar.







The Saga of Biorn
Uma beleza de 3d com cara de 2d, pra rir sem fazer força.







Salesman Pete
Ação! Extremamente bem feito.




Meet Buck
Pense num 3d para babar...








Loom
Aranha do mal... Incrível nos detalhes!





Love Patate - trailer
Um dessas historinhas bizarras e curiosas que sempre valem a pena.







The Tadpole
Acho lindo. As cores e os efeitos sonoros me encantam.



Save our Bacon
Não rola nem teaser na interneta ainda, mas é tão tãaaao fofinho, que é bom dar uma olhadela no estilo da arte aqui para não esquecer que sabia da existência dessa lindeza.


The Eagleman Stag
Eu fiquei chocada quando vi esse curta. O stop motion de bonecos de isopor, mesclado com papel, tem uma arte impecável, de fazer cair o queixo de qualquer maluco que já brincou de animar bonecos. Muito bonito.





Viagem à Cabo Verde - trailer
É um curta um pouco longo e pode ser cansativo pra quem não entra na viagem do cara, admirando as aquarelas e as composições sinistras de cenários, com base em rabiscos de moleskine. Nele rolou a frase mais identificadora do gene de peregrinagem do protagonista. Era algo como "quando ando, me sinto perto das minhas pessoas. Quando paro, me sinto longe... como que se os pés só criassem raízes quando estão parados."







Vicenta
Stop motion de massinha. Historinha hilária.







Virus
Composições aleatórias lindamente sincronizadas. 



Heroes of the UAE
Stop motion prmoroso com papel. Da sessão Portifólio.






How Your Money Works
Adoro essa estética. Também do Portifólio.





Cliché
Lindo, lindo, lindo!




Prometo que volto logo. ;)