7 de dezembro de 2011

A simples lógica da fé na vida

"A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita" 
Mário Quintana









E aí que ela negou o último dos chocolates, lembrança da viagem exótica do primo, para uma grávida. Lógico que tinha que rolar um terçol sinistro na semana seguinte, mas né... dar de lambuja o último doce da Conchichina é demais até para madres teresas de calcutás.

Acontece que eu sou uma pessoa de fé. Confesso minha religiosidade em tempos não tão remotos. Há 10 anos atrás, esse ser que vos escreve era tachado como a evangélica extremista (falar nisso, vejam isso) que não ia por nenhuma gota de alcóol na boca num agito de segundo grau, nem mandar idiotas-mor tomar no fiofó em situações dignas da apelação, muito menos curtir um sexo gostoso com alguém que estivesse realmente afim. Não, né gente? 16 anos, bora lá. Mas por mais que na época de adolescência da minha geração fosse precoce iniciar vida sexual nessa fase (not), a minha defesa era de sexo só depois do casamento.

Com o tempo eu percebi que Deus não tava muito se importando com minha energia direcionada a esses esforços. Que se eu colocasse meu sorriso pra brilhar enquanto ajudasse gente na rua ou conversasse com um amigo que precisasse de um ombro, já ia ser expressão do bem e manifestação de algo divino (me acho, né? haha). E aí, tanta coisa mudou que hoje eu tenho que me defender de ataques de falso moralismo (às vezes) e de julgamento (sempre), porque tenho amigos irmãos da minha época muito gospel que ainda pensam bem quadradinho. Ao mesmo tempo, se vier broder ateu enfiar dedo na cara e questionar paradinhas, eu me acho sinistramente capacitada pra argumentar com base bíblica, se for preciso. Afinal, eu ainda sou uma pessoa de fé. E respeito sempre foi valor supremo.

Vem ao caso que eu nunca acreditei que Deus seja do mal. Eu maior boto fé num super-mega-blaster-hadouken-todo-poderoso amigo íntimo, O companheirão. Isso vai contra a dinâmica de pecado seguido de punição e morte do velho testamento, simplesmente porque não creio que caiba castigo nessa relação. Pra que Ele ia ficar se preocupando em me vigiar só pra me culpar? Devem existir alguns milhares de motivos maiores pra ocupar quem criou o mundo, não é mesmo?

Na minha cabeça, é só uma lógica de fiz errado, ops, alguma coisa não muito certa/agradável pode vir como consequência das minhas ações. Roubei, ops, posso ser preso. Matei, ops, culpa eterna na cabeça (no mínimo). Cobicei a mulher do amigo, ops, vou perder a amizade ou ganhar um belo de um fight (nem que seja aquele olhar do arrocho "fica esperto, maluco"). Não precisava ser lei em tábuas, não precisava ser mandamento. A máxima "não seja um idiota" já era suficiente (diria 9gag). Na minha cabeça, que fique bem claro.

Se fosse pra rolar esse lance do castigo, acho que ia ser muito mais na brodagem só pra dar um cutucão de pai, sabe? Tipo ontem, que apareceu, pela terceira vez no ano, uma maldita duma espinha dentro do meu nariz. Primeiro pensamento: suvaco de coisa do capiroto. Raciocínio evoluído: na real, isso é tão do mal, mas tão de boa, que pode ser um toque divino pra eu me tocar quanto alguma coisa que eu tô fazendo torta. Talvez seja essa mania de inventar vagas em estacionamentos, de oferecer comida pra quem tá de dieta, de carregar músicas ruins no celular (que são, por si só, a própria punição). Ou talvez seja só o excesso de chocolate. Talvez.

Já o terçol, eu não sei explicar dicolé. Deve ter uma magia.

Costuma ser mais simples do que a gente pensa.
É bem por aí, mesmo.

10 de novembro de 2011

Você é meio mal feita, né?


"Perfeição é coisa de menininha tocadora de piano"
Nelson Rodrigues


Eu não ia responder a pergunta do título à altura porque era pra ser ofensa daquelas que é o máximo de declaração afetuosa vinda do hermano elegido. Só levantei meu nariz empinado e fiz minha cara de superioridade-mor.

Meu punho esquerdo é bichado de tendinite (mas tem marca do Clube da Luta que é muito útil em situações hardcore variadas), me falta um pedaço da visão de um dos olhos, minha alergia dá medo de morte, agora meu estômago resolveu não funcionar bem de manhã e, de vez em quando, eu tenho crises nervosas de chorar piscinas olímpicas. Na época que ouvi a frase da abertura aí, eu tava curtindo uma sarna espanhola daquelas de afugentar abraços de despedida e numa maré de azar que valeu pelo ano inteiro. Eu não tava e não tô nem aí.

Mesmo que meu pai adorasse camelos e tivesse pegado os 37 que valho, eu vim sem garantia (já diria o outro broder amado – pra vocês verem como só tenho amigo gente fina). Mas, peraí... aaaaah, você também não tá garantido, né? E aí que se dá uma pane no sistema, quero ver neguim correndo desesperado em busca de manual de instruções ou tentando descobrir paradas que nem o Yahoo Perguntas responde. Fuuuuuu. \m/ TENSO.


Desconfio que faça parte da magia desse mundo aleatório ser povoado por seres essencialmente imperfeitos assim. Uma galera mal feita, de verdade. Teoria do caos, que começa no âmago da existência humana, bla bla bla. Papo chato de gente que não sabe que rumo tomam as coisas, eu sei. Mas aê, pouco importa [nerd de cgi mode on] que o specular diffuse no meu olho não ficou lá essas coisas, que um dos vértices da geometria do dedo do pé falhou, que faltou extrude em algumas partes, que o skin surface displacement não renderou direito, frikis de mierda [nerd de cgi mode off].

É muito bem feito a gente ser mal feito. Daquele bem feito que a gente usa pra bullynar o amiguinho, seguido por eita tan tan tan, e no sentido positivo (de lindeza) também. Esse tipo de coisa tem propósito maior que o céu, certeza. Nossa imperfeição de agora ainda não nos permite entender, mas nosso tempo chegará, pequeno gafanhoto.


Se te pedirem garantia, manda essa, com aquele sorriso phyno de Juliet: "Contente-se com isso. É o que temos para hoje". As pessoas costumam encarar... porque elas também esperam essa compreensão de nós.


E venha, que o que vem é perfeição, uôoo, uuuuh uh.

10 de outubro de 2011

Dessas questões tão difíceis da vida

"Quem não compreende um olhar 
tampouco compreenderá uma longa explicação"
Mário Quintana


Meia hora depois de um estudo aprofundado das dinâmicas dos grupos formados após desembarcar do vôo de volta para casa, escolhi uma galera de uns 6 senhores e senhoras com caras de pais e mães de família. Ah, eles compreenderiam.

- Boa noite... Por favor, algum de vocês têm um celular para me emprestar? Eu preciso ligar a cobrar pra minha mãe.

Alguns segundos de cri cri cri, que sempre vão parecer eternos enquanto durar... Até que começam a murmurar:

- Eu não.
- Poxa, eu também não...
Seguido de movimentos negativos com a cabeça e silêncio constrangedor.
- É só uma chamada a cobrar - insisti.

Desviaram o olhar e começaram a se espalhar para beeem longe de mim.

Assinale a alternativa correta:

A) Minha cara de maconheira-dorme-suja adquirida nas 24 horas de trânsito e despedidas não inspirava nada de confiança.
B) Todos foram acometidos de uma preguiça infinita depois da viagem cansativa que os impossibilitava de fazer qualquer movimento muito trabalhoso como o de abrir suas bolsas ou procurar nos bolsos algum telefone móvel.
C) É contra as regras básicas de segurança emprestar celular para criancinhas pedintes de ligações a cobrar, principalmente se elas querem só entrar em contato com suas mães.
D) Todos os 7 passageiros presentes naquele círculo estavam voltando de uma temporada de moradia superior a 6 meses na Europa e só tinham celulares de lá.
E) Bando de babaca.


Respostas nos comentários, por favor.


17 de setembro de 2011

Just go, babe


“Ora, se não sou eu quem mais vai decidir o que é bom pra mim
Dispenso a previsão
Aaaaaah, se o que eu sou é também o que eu escolhi ser
Aceito a condição”
Los Hermanos


Daí, ela curte tanto tanto a poesia do carinha que decide estabelecer aquilo como estilo de vida. Pra não fugir da levada, inventa de fixar a frase determinante do destino ao alcance dos olhos. Ei, isso funciona! Porque já funcionava antes, talvez. Só foi um reconhecimento de missão, que alguém conseguiu traduzir tão bem em versos e outro alguém querido teve a iluminação de me enxergar lá. Obrigada, mundo. =) 


Rola de ir levando e se esforçando com tudo que há na gente... rola de colocar uma coisa na cabeça e dar o melhor de si por ela... rola de abandonar, de abrir mão, de se jogar, de se negar, se for preciso, de se perder. Talvez por culpa dessa petulância capricorniana que me toma, uma força além de mim (afinal, as culpas nunca são minhas). Vão me chamar de cabeça dura e teimosa ou de corajosa e maluca. Eles têm razão quando vêm dizer que eu não sei medir nem tempuuuu e nem meduuuuu. Mas, no final das contas, entende-se que persistência e determinação é o que leva as pessoas para o SU-CES-SO, né gente? Né? NÉEEE??? Gente, vocês tão aí?

 
Ok, I won’t Pollyanna you.

Confesso que a parada é tão negativa quanto positiva. Essa mesma teimosia maldita me faz relutar para aceitar que as coisas me encaminhem a viver em outra onda. Que aquele comportamento do outro, aparentemente puro relinchismo, pode um dia ser o meu.  Que meus planos podem não ser os melhores. Que minha aposta da vez pode não dar tão certo quanto imaginei. Véeei, isso é tão foda de admitir.

De repente, seu mundinho ó... vira.

E aí, é preciso ficar bem claro que a premissa tatuada do roll the dice style não perde o sentido. A gente tenta sim, com todas as forças, de todas as formas. Sem essa de desistir (ô palavrinha cruel). Todo mundo pode voltar atrás e mudar o rumo até... que... haja fôlego... de vida. Né.

Vou tentar de outro jeito. Afinal, já comecei e ainda não fui all the way.

3 de setembro de 2011

A (triste e) sustentável maldade do ser

"Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração..."

Legião Urbana 


Outro dia, fiquei um pouco decepcionada com uma crônica da Lya Luft na Veja. Era um daqueles textos que expõe tudo quanto é barbaridade que rola no mundo, que nos dá mil e dois motivos para não crer que a humanidade tem jeito a cada parágrafo, mas que conclui respirando fundo, como se ela visse a luz no fim do túnel. “Ah, que legal, ela tem um motivo para acreditar”, pensei irônica, destilando meu veneno. Achei pesado, negativo e pessimista. Não me convenceu. Mas quem sou eu no jogo do bicho que dona Lya participa? Nadie.

Meu mino é puliça e minha melhor amiga é psicóloga. Embora eu bata o pé em maior parte das conversas em que se questiona a maldade inerente de algumas pessoas, não tem como, eles têm mais autoridade pra afirmar que existe gente que só veio pra bagunçar. Gente ruim, que por mais que passe maus bocados em 15 anos preso, ainda vai sair com uma Bíblia na mão com uma faca dentro, pra enfiar no bucho de qualquer maluco que se meta no caminho. Gente sem jeito, que se trata a vida toda e só clama para que alguém tenha coragem de arrancar o órgão genital de entre as pernas para que os impulsos de pedofilia parem. Gente do mal por substância, por essência.

É o tipo de gente que nem se assistir toda minha coleção de desenhos, ouvir meu playlist Felicidade do iTunes e conhecer meus amigos, vai começar a enxergar a vida com bons olhos. E olha que isso é bomba do que há de melhor no mundo. O meu problema é ser otimista a ponto de querer que o T-Bag vivesse alguma experiência que transformassee todo o restante da história dele na série. Eu não posso deixar de ter fé em seres humanos. Mais porque, se eu deixo de acreditar em gente, meu motivo pra fazer o que quero fazer da minha vida, animar para emocionar pessoas, vai por terra. Se elas não valem a pena, meu trabalho perde o sentido.

Semana passada, entraram no meu orkut e mudaram minha identidade. Tudo bem que ele tava lá às traças, só pra manter depoimentos e contatos, mas véi... Puta Verdadeira, da Putolândia, fazendo serviço de promoção... é demais. Pra que? Não me interessa nem quem, só pra que. Fui tomada de uma angústia que me lembrou tempos remotos de fotolog, quando alguém resolveu me stalkear deixando mensagens ameaçadoras nos meus posts e nos das minhas amigas. Depois, essa pessoa foi visitar outros fotologs e deixou alguns xingamentos pra gente que eu não sabia que existia, assinando com meu nome. Na época, pus minha equipe de investigação pra funcionar, tirava printscreen das telas, buscava endereço de IP... mas o medo de ir até a biblioteca da universidade sozinha foi mais forte, motivou meu fotologcídio. Resolveu.

Eu não entendo o que motiva essas pessoas a fazerem merda desse jeito. Se é falta de educação ou só falta do que fazer, mesmo. Uma força incontrolável na cabeça ou na alma que não é. Bem, talvez sim, mas não creio que seja o caso. É um povo que vai pros fóruns de concurseiros só pra dizer desaforo em caps lock, que entra em blog de empresa, cheio de filtros para barrar expressões de maldade humana, para gritar em alto e bom som “ha ha, eu sou um troll poderoso que deixa palavrões nos comentários, ha ha”. Nossa, amigo, como você é esperto. Fico de cara... ¬¬ Idiota.

Sei que numa dessas voadas por aí, contemplei um rio gigantesco que sorria. Isso mesmo. Da minha visão aérea, vi dois olhos e uma boca feliz, tipo smile de ilhazinhas com árvores. Aí lembrei do faces in places e de uma das lições de intro a história em quadrinhos da época de caloura. O lance da identificação humana nas paradas sempre me encantou. Sei lá, me parece a prova mais concreta do nosso egocentrismo: a gente se vê em tudo que é coisa. Ao mesmo tempo, parece mesmo que tudo isso foi feito pra gente. Vai que alguém monta esse sorriso lá de cima só esperando que algum peregrino desses que adoram ficar olhando pela janela se veja e fique todo sorrindo junto, que nem eu fiquei?

E se o mundo fosse de árvores? Digo, se a gente fosse só o coadjuvante que se acha estrela dessa bagaceira toda? Boto fé que elas mandam melhor. O caminho talvez seja esse... colocar nossa fé nas árvores.

Me convençam do contrário, por favor.


No fundo, acho que só não queria concordar com a Lya.

25 de agosto de 2011

Sabe o que é? É que num tem

"Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus."
Carlos Drummond de Andrade


Era uma vez, um lugarzinho no começo do nada, com cor de chocolate, cheiro de terra molhada... ah, de esgoto e suor também. Cidade do “num tem”. Num tem internet nas casas (nem com 3G), num tem sinal nos celulares, num tem pão na padaria, num tem biblioteca, num tem escola boa, num tem água transparente nas torneiras, num tem político do bem, num tem vigilância sanitária, num tem gente educada, bom atendimento e disposição para trabalhar, num tem entretenimento. Quase num tem vento. Mas ainda acho que pior mesmo é que num tem estrada decente que te leve para Num Tem.

Tem chuva, tem terra, tem buraco, tem bandido, tem puta, tem igreja, tem pastor exorcizando puta, tem tecnobrega, tem arara, macaco louco e tatu, tem floresta amazônica. Tem pizza de calabreza da batavo, tem ades sabor cereal com mel, tem açaí (com ou sem doença de chagas, diria o gato), tem comida industrializada vencida, mas tem peixe e camarão frescos. E, surpreendam-se, tem como viver bem em Num Tem.

Antes é preciso passar por um processo de desapego do que se tem quando não se vive em Num Tem. Tentar compreender que os nativos nunca nem souberam o que é ter. Torcer para o asfalto chegar no caminho, para que deixem de num ter mais rápido. Segurar o emputecimento crescente pelo governo de Nada que esquece do norte, que descuida dos começos e dos fins, que não pensa nas beiradas (que, cá pra nós, deveriam ter, no mínimo, recheio de cheddar ou de catupiry. Não, num tem).

Um dia, Num Tem talvez mude de nome. Enquanto isso, é respirar fundo e usar o superpoder liviano de adaptação. E meditar um bocado a cada constatação da ausência das coisas, sempre tão bem pronunciada.

Auuum.

7 de agosto de 2011

A beleza que não está nos olhos de quem se vê

“A moça feia debruçou na janela
Achando que a banda tocava pra ela”
Tio Chico


Você sai do “primeiro mundo” diretão pro cof cof cu do mundo. Seu cabelo reclama do tempo úmido e faz questão de armar a Revolta dos Fios Rebeldes, inimigos de pé em protesto constante. Sua pele do rosto clama por secura, porque “se não, ó essa espinha aqui que eu ponho no meio da bochecha pra você aprender”. O nariz é um dos únicos que só tem a agradecer pela umidade presente. Bora lá, botar o mulherão completo que há dentro de você pra funcionar. Cozinhar, ajeitar a casa, fazer mercado, correr na lan e freelar em casa. Esperar o homem chegar do trampo, com o máximo de beleza natural que é possível preservar a cada dia, e cobrí-lo de mimos e amores. Beleza.

Depois de uns dias, você se olha no espelho, o cabelo tipo grevista, firme no rebelde style, o rosto até ameaçando por ruga na jogada, o corpo cansado... Falta o momento da maquiagem for real, de puxar o cabelo pra domar os fios, de subir no salto e se encher de acessórios, de emperiquitar-se toda e sair de casa segura de si, se achando. De fugir do natural, de ser um pouco artificial, sabe? Faz bem isso. O espelho que o diga. Não precisei nem pensar muito... ele já tava lá proclamando com berros: FEIA!

Não curto muito conversar com espelho nessas horas. Só abaixo a cabeça e vou cuidar de outras coisas, pra nem ouvir nos desaforos que ele vai continuar gritando do banheiro (certeza que rolou de baranga pra baixo). Bicho esgoto do baralho. À noite, talvez eu reflita. Mentira, com certeza eu vou ficar maluca com a feiúra pronunciada martelando na cabeça. Aquela coisa vai abater um cadinho e deixar a autoestima baixar. O gato vai acariciar o seu ego de todas as formas que já inventaram no universo. Ajuda, mas não resolve. O negócio é tentar virar o jogo contra o maldito espelho. Nada resiste ao julgamento matador que vem dos nossos próprios olhos.

Eu poderia fechar aqui agora com super lição de revista feminina, aquela dica precious para dar um up no seu período de mal com sua aparência, dizendo como eu atravessei esse momento horroroso da minha vida e cheguei até aqui, ó amigos leitores que vivem os mesmos dramas que eu. Mas não. Eu não tenho solução pra isso... e nem pra um monte de coisa. Eu não sei resolver, mas sei das minhas vontades. Ajuda? Ainda quero meu cabelo sedoso e no estilo Bündchen (tenho ódio dos tamanhos intermediários, tipo o de agora, que não tá nem massa recém corte nem massa uh la la cabelo longo bonito), meu rostinho lisinho como bumbum de neném, minhas unhas feitas durando 5 dias, que seja. E o corpo de Juliana Paes retocado por photoshop, claro... mas isso sempre foi projeto a longo prazo.

Essa bagaceira me fez refletir como esse negócio de ser bonito se grudou ao estar bem. Quem foi que inventou de uma coisa depender da outra? E aí, eu escrevi um tratado de verdade, só que no moleskine. O conteúdo passa pela quantidade de gentilezas que se recebe diretamente proporcional ao tamanho do decote, passa pelas crianças invisíveis na puberdade se lhes faltam peitos ou músculos, passa pelo fato dos bebês morenos não serem dignos de inclusão em publicidade de papel higiênico ou leite. Como aqueles conceitos (hoje aparentemente antiquados e conservadores, além de altamente questionáveis) de moral e bons costumes - assim, tão juntinhos que quase um só - têm tudo a ver com o “bom dia” que eu não recebo com minha juba desgrenhada e vestida de crente assembleiana tradicional, mesmo que eu entre na loja sorrindo, pedindo interação.

Escrevi tanto no papel que não tenho coragem de expor tudo aqui. É daqueles tipos de textos gigantescos que questionam demais, que a internet exorciza prontamente. Coisa de gente chata. Daí, como eu finjo que sou legal prefiro passar por cima, fazendo referência a um dos primeiros episódios de Sex and The City, o Mortals and Models, que fala dos modelizers. O final (que não vou contar, dessa vez - lucky you!) é semelhante ao diálogo que compartilharam comigo outro dia, de uma banda que foi gravar um clipe e uma das integrantes do grupo, que estava no período pós parto recente, declarou algum desconforto pelo próprio visual descuidado.

- E aí, você quer marcar a gravação para outro dia? Quer que a gente dê um tempo para você se ajeitar?
- Naaah, que isso. Depois de ter filho, cara, só me importa que isso aqui seja divertido... Eu só quero que as coisas sejam divertidas.

Bonita.

Então, né: enjoy it.


“Isso são grains de beauté
Que aqui estão pra ajudar você
A encontrar o caminho de casa”
Céu

1 de agosto de 2011

As pérolas do Animamundi 2011

"Just stay there, 'cause I'll be comin' over
And while our bloods still young, it's so young, It runs
And we won't stop til it's over
Won't stop to surrender
The temper trap


Desde 2005, quando ainda era uma pequena gafanhota e senti essa vontade louca de trabalhar com animação crescendo dentro em mim, virei ratinha de Animamundis.

Nos 6 anos seguintes, até nos festivais em que tive a chance de ser monitora de oficinas no Rio, não resisti à tentação de ser público para me encher de inspiração em Sampa. A-do-ro! Quem me conhece sabe que é só me jogar ali no Memorial da América Latina nesse período do ano que uma alegria instantânea toma conta do meu ser. :)

Hoje, eu percebi que nunca tinha animado meu tratado com essas belezuras fofas e fodas que costumo ver e só enviar pros miguxos ou postar em blogs pagos. Daí, pensei "por que não?".

Quero compartilhar coisa boa! Não vi tudo, mas catei alguns links dos filmes que mais me chamaram atenção. A lista completa dos curtas selecionados para o festival deste ano está no site oficial. Eu entendo que nem todo mundo é anima freak que vai se empolgar horrores e ver cada um dos vídeos que fiz questão de colocar nessa listinha aqui... mas, vai que, né?

Espero que curtam!

Paths of Hate - trailer
Arte fodástica, com desenhos detalhadíssimos e animação bem feita.






Honda The Dream Comes True
Estava nas sessões de Portfólio. Fodástico!






Ormie
Precioso da sessão infantil, que merece ser visto aqui.


Trois Petits Points
O estilo do desenho lembra A quoi ça sert l'amour, um dos meus curtas preferidos. É mais uma obra de arte da Gobelins.







Thought of you
Rolou uma rotoscopia aí, com certeza. É tão lindo (apesar do final que deixa as meninas todas contrariadas, haha) que não tenho muito o que falar.







Birdboy - trailer
Estranhíssimo, mas uma poesia só. Bora esperar um pouco mais para ver completo na internet.







Big Bang Big Boom
Coisa do Blu, trabalheira do baralho, pra variar.







The Saga of Biorn
Uma beleza de 3d com cara de 2d, pra rir sem fazer força.







Salesman Pete
Ação! Extremamente bem feito.




Meet Buck
Pense num 3d para babar...








Loom
Aranha do mal... Incrível nos detalhes!





Love Patate - trailer
Um dessas historinhas bizarras e curiosas que sempre valem a pena.







The Tadpole
Acho lindo. As cores e os efeitos sonoros me encantam.



Save our Bacon
Não rola nem teaser na interneta ainda, mas é tão tãaaao fofinho, que é bom dar uma olhadela no estilo da arte aqui para não esquecer que sabia da existência dessa lindeza.


The Eagleman Stag
Eu fiquei chocada quando vi esse curta. O stop motion de bonecos de isopor, mesclado com papel, tem uma arte impecável, de fazer cair o queixo de qualquer maluco que já brincou de animar bonecos. Muito bonito.





Viagem à Cabo Verde - trailer
É um curta um pouco longo e pode ser cansativo pra quem não entra na viagem do cara, admirando as aquarelas e as composições sinistras de cenários, com base em rabiscos de moleskine. Nele rolou a frase mais identificadora do gene de peregrinagem do protagonista. Era algo como "quando ando, me sinto perto das minhas pessoas. Quando paro, me sinto longe... como que se os pés só criassem raízes quando estão parados."







Vicenta
Stop motion de massinha. Historinha hilária.







Virus
Composições aleatórias lindamente sincronizadas. 



Heroes of the UAE
Stop motion prmoroso com papel. Da sessão Portifólio.






How Your Money Works
Adoro essa estética. Também do Portifólio.





Cliché
Lindo, lindo, lindo!




Prometo que volto logo. ;)

12 de julho de 2011

Dos males irremediáveis que vêm para o maior dos bens


"Celebrate we will
Cause life is short but sweet for certain”
Dave Mathews

Eu sou alérgica à analgésicos. Poderia ser à glutén, que é mais chique de falar, ou à coca-cola, pipoca, chocolate, bacon, yogoberry, açaí, nutella ou qualquer uma dessas maravilhas que fazem a vida mais saborosa. Talvez seria mais fácil. Mas não, meu organismo não reage bem à medicina para amenizar a dor. Agora imagina quantas moléstias doloridas de verdade me assolaram sem eu poder tratar, tendo que aguentar na raça. Não, antes disso, imagina quantas vezes eu sofri crises alérgicas que me levaram às emergências dos hospitais, até descobrir que não pode tomar aas, dipirona, novalgina, tylenol e qualquer outro a base de paracetamol, ibuprofeno... É chão, menino. E se rolar ainda hoje, tudo vai começar com um super olhar sedutor de Corcunda de Notre Dame e pode terminar no soro.

Esse lance de não poder contar com dorgas, manolo, pra aliviar a cólica do inferno, a cabeça estourando, a recuperação da cirurgia, só pode ter me feito uma pessoa mais... er... sofrida, pela lógica. Mas bora ser otimista, que eu talvez seja mais resistente que vocês, ó mortais que podem usar analgésico! Se a gente não pode acabar com a dor do jeito mais simples, bora lá, suportar. O negócio comigo é assim: o que não tem remédio, remediado não estará. Ou talvez a gente dê um jeitinho com compressa, coisas alternativas que mãe tem as manhas de fazer, cházinho, cafuné e carinho. Manha é a moeda de troca.

Às vezes, basta super presença falando que vai ficar tudo bem, ou aquela força que vem do além (que pode ser entendido como internet, sms surpresa ou telefonema brinde) pra dar aquela levantada. A dor vai continuar sim, porque também né, ainda não conheci um curandeiro que sara com palavras para forçar amizade (I would, na alta). Mas sabe quando meio que parece que essas pessoas vão catando cada uma um pouquinho da sua agonia e tentando tratar com os métodos que conhecem? E aí, quando você se dá conta, esse momento de cuidado te entreteve tão bem que tcharam, psss, passou, Pequena.

Eu curto muito esse poder humano. Faz parte do ser super de gente. Lógico que eu preferia que não doesse. Sei que não depender de remédio para fazer a dor passar não me fez tão mais forte assim. Sempre fui molenga e chorona... principalmente quando dói. Mas aí, sem jeito, o maior medo da minha vida, que é morrer de alergia, vai me manter longe dos tratamentos de gente normal. E é bem por isso que eu preciso de humanidade perto. Isso aí, certeza, é remedinho dos céus.

Pode injetar amor diretamente nas minhas veeeias. Não há dor que resista a esse tratamento. Nham.

3 de julho de 2011

Madrileña... un poco si, no?

"A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!"
Mário Quintana



Só não de carteirinha, porque fizeram o favor de levar até isso no furto durante a festinha de despedida. Mas whatever. Essa bagunça faltando 7 horas pra me mandar do Brasil me concedeu generosos 4 dias de estadia semi-forçada e de despedida tranquila e decente. Lets pollyanna, indigente.




Sou suspeita em cada palavra. Não poderia deixar de ser.

Mesmo que digam do stress de capital, da falta de educação no tratamento com o ser humano (de banho e bons modos do povo também), dos preços altos comparados com os das outras cidades espanholas, do sistema público de saúde que arrebenta qualquer um cobrando 120 euros numa emergência estilo hospital público do mal, dos carteiristas ninjas espalhados pela cidade, da paella mais ou menos, do clima frio de rachar bocas e fazer sentir o peso de 3 casacões nos ombros, e do sol que castiga quando quer (mas desse eu goixto).


Mesmo assim, Madrid é amor. O metrô é perfeição e tem todo o direito de estar entre as referências mundiais. O Parque do Retiro é... o retiro, literalmente. Deveria ser parada obrigatória de qualquer pessoa em passagem por Madrid. Já sinto falta das promoções de quarta dos 100 Montaditos, dos almoços nos VIPS, dos passeios no Sol, dos agitos tranquilos ou conturbados no bar da Ju (que a gente nunca vai saber o nome, rs), no La Aguja (que ficou com minha carteira de recordação¬¬), do Mi Madre era una Groupie, com ou sem gás de pimenta outside.



Saudade de ter preguiça da Tabacalera. De comer bem no Rey de Tallarines, delícia de yakissoba bem servido, ou no Oiishi Sushi supermodernidade de pratos magneticamente encaminhados, haha. Dos cinemas com cara de palácio (Cine Doré) ou de casa. De cantar parabéns pra mim no Il Piccolini de la Farfalla, de ver em cada esquina kebabs (que eu nunca tive coragem de experimentar. Nessa jaca eu não enfio meu pé!) e promoções de 6 porras por 2 euros, alegria instantânea das caminhadas matutinas.


Do chocolate quente precioso do Café Corner, de tirar a barriga da miséria no FresCo. Dos sanduichinhos minguados da Rodilla, eu quero é distância. O coração aperta é quando lembro do melhor alfajor do mundo no Nurielle, da batata brava com McDuplo, do McMenu que vale a pena de verdade. Do Dia, com o Le Petit Beure e Kit Kat, Lays verde sabor artesanal, Pringles, vinhos e carpaccios, tudo barato. Caramelo macchiato do Starbucks. Donut de bavarian cream no Dunkin Café. Coca com rum. Tequila (depois de 3) não. Dos tintos de veranos, das tortillas de batata divinas e do curry em tudo.

Saudade da CICE, escola lindinha, bem equipada e gentil no material didático. Dos casacões bombados da Zara, das blusas estilosas da H&M, das saias e vestidos da Bershka, das bijus da Six, de algumas lingeries da Intimissu. De só observar as vitrines da Desigual. De andar pelo Reina Sofia, pelo Prado. De montar quarto com produtos do Ikea, tok stok barata onde o vento faz a curva. De comprar ukulele por menos de 20 euros e jogos pra PSs em pechinchas constantes, de montar computador sinistro pela metade do preço brasileiro. Da feirinha do Rastro, da Gran Via. De ter outras cidades em até outros países logo ali, por 40 euros, ida e volta.


De passear em frente a castelo e comentar “queria morar aí não, deve dar muito trabalho para limpar” e sempre ouvir “mas, Livia, se você morasse aí, não ia ter mesmo que limpar”. De ouvir um bom músico mandando ver a qualquer passo. Das caminhadas sem rumo até não sei onde, mas chegando sempre em algum lugar guapo que merece o descanso sentada na grama, na calçada, no chão. Caiu na construção como se fosse uma bêbada, Ju. Stop this train e que vida cheia de cena de cinema, Dani. Es que no hay presente, por que ahora ya es pasado, ahora si, ahora no... pero sabes? mais vale, Jaime. De beber batido de fresa Joselihto y escuchar que cabezona es mi amiga Livinha. EQUIPO A MOLA MUCHO MAZO TRONCO. All the single ladies, o ô ô. Nazarêeeeeee ♪. E tanta coisa mais.

Saudade dos meus amigos (ou seja, de nenhum madrileño). Da minha casa estilo folk, dos compañeros de piso tão... músicos. Dos “meus” gatos, carinho e companhia de sempre. Do sol gostoso que entrava pela minha janela... que fazia do meu canto cheio de calor do Brasil. Dos ventos mágicos de cheiro neutro que passavam de vez em quando nessa mesma janela. Dos almoços em família escolhida e inventada. Das visitas, as mais acertadas e esperadas. Dos uy uy uys, vales, vengas e ains. Do que há de melhor para falar: mimosa, seguro, dá igual, hijo puta, preciosa, me cago en la boca abierta de tu puta madre violada, graciosa, bueños (que eu inventei, na alta), rollo, prometemelo, HOSTIA!




As sugestões estão aí, misturadas com as sentimentalidades todas. Eu até tentei fazer post separando o que tem para ver, para comer, para curtir.. mas sei lá. Para mim, Madrid é maior para viver. Se não rolasse a crise absurda que só desemprega há 4 anos e 97,83% do meu coração não estivesse no Brasil, eu botava muita fé de criar raízes mais profundas em solo espanhol. Madrid estaria bem cotada, juntamente com Granada e Sevilla, haha. Ok, sou facinha. Mas ó... fica a dica. ;)


Experiência e tanto... 7 meses fofuchos de vida, com altos e baixos, felizes na plenitude de pobrecita (porque não tem como morar nas Oropa sem se desapegar de muitos dinheiros). Vão ficar guardadinhos na mesma sala especial que as fases Rio e Sampa de vida liviana têm no coração. Sala essa especialmente decorada para seu maior conforto, ó lembrança altamente amável, de cidade que me faz eu.

Foi tão bom. :)
200 fotos da aventura aqui.
Coletânea de vídeos do Madrid in street concert aqui.



Agora, voltemos à programação normal.
Or not that normal, ho ho ho. \m/

27 de junho de 2011

[Granada, ES] A grande amada, com razão

"No pretengo parar
¿Dime quién camina
Cuando se puede volar?"
Shakira
Você chega, sente o ar mais leve e tem vontade de sair voando (ok, não todo mundo. Deve ser coisa de quem tem pulmão - ou peito ¬¬ - de passarinho). Mas então, o que eu quero dizer que a cidade é tão lindinha, fofa e carinhosa com você que dá vontade ficar lá pra sempre. Daí você vai gastar 15 euros pra ir e voltar (saindo de Madrid) de ônibus; chegar na rodoviária e já ser recebido com mapa e instruções; vibrar com as diárias de preços mixurucas pra um esquema de hotel superconfortável com internet, café da manhã e atendentes dispostas; se apaixonar pelas teterias aconchegantes, onde você toma do jarrinho de chá delícia acompanhado de crepe maravilhoso por 4 euros; querer das cañas com os tapas mais bem servidos da Espanha. 

Vai caminhar e caminhar e caminhar e caminhar... ver igreja de pedra, ver castelo de pedra, ver chão de pedra, ver casa dentro de pedra. Quando parar para descansar, vai olhar pro horizonte e contemplar a Alhambra... e quando chegar lá, você não vai querer mais sair. Mesmo que tenha o azar de não conseguir ingresso (compra aqui antes, ó!) para o tour mais bombante nos palácios, vale cada segundo de passeio no canto de onde emana a leveza de Granada. 

 Para ver:

 





-Barrio Gitano


- Casa de La Sevillana








- Teteria fofa bbb



- Catedral (por fora)


- Alhambra

















Fim dos passeios na próxima parada: Madrid, oh Madrid! ♪ 

Muá!