15 de dezembro de 2010

De primeira, hein?

"Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração."
Carlos Drummond de Andrade





Sempre me incomodaram muito as afetações que passagens pela Europa e EUA (independente da finalidade) causam em alguns brasileiros. Infelizmente, é mais fácil ter que suportar papos pós-viagens que diminuem a nossa pátria mãe gentil, colocando o tal do "primeiro mundo" no altar, do que ouvir alguma declaração que a coloque acima do chinelo, no mínimo. Não, não vou me atrever a discutir e comparar as coisas, porque renderia alguns muitos parágrafos muito bem argumentados para não ter que encarar ataques de galeras armadas, prontas pra briga. Ok que aqui as coisas sejam mais bem estruturadas, o transporte público funcione, os impostos sejam mais baixos, alguns lugares tenham a beleza que os nossos não têm (o que não exclui, de forma NINHUMA, a existência da nossa em abundância, certo?), o ensino seja de altíssima qualidade, meu parque de corrida tenha um visual mais cinematográfico e tal... Mas sem esse papo de que toda superioridade em todo aspecto pertence aos de fora. Que mania de colonizado eterno. ¬¬


Aqui os motoristas param, de fato, ao primeiro sinal de alguém para atravessar a faixa. Não é grande coisa para quem vive em Brasília (aí eu tiro onda meixmo), mas com certeza é impressionante ver que existe uma vontade real de fazê-lo. Isso é diferente... porque nego para achando bom. Uou, que fantástico! O encantamento dura até que você descubra que existe uma multa tão super-hiper-mega-ultra-blaster-hadouken-alta que ninguém nem ousa não parar e (atenção para o detalhe básico:) se você atropela alguém na faixa, a "vítima" é que recebe a grana. Justo? Hum, para e pensa. Que tal "vou tirar uns euros ali na faixa"? Como no? Jeitinho brasileiro? Naaah, jeitinho de gente. Coisa que acontece na minha nova esquina.

Puliça chegou e a dona esperta se levantou da queda típica de novela das 7 da Globo de 3 anos atrás (hoje em dia já tá melhor, né?). O taxista já tinha sacado tudo e talvez os caras da lei (que usam uniforme quase tão estiloso quanto da PF) tenham reconhecido a treta. Nenhum ferido, nenhum acidente real... alguém infeliz. Talvez a conta de alguém mais gorda no fim do mês, ou não. Vai saber.

"Primeiro mundo", minha gente. Não posso afirmar que esse tipo de coisa não aconteceria no Brasil, porque... né? Tem gente de primeira a última categoria em qualquer lugar do planeta.

Outro dia, o colombiano (que não me parece mala gente) insistiu para que eu me tornasse amiga de um amigo dele, porque o cara era rico e podia me ajudar a "viver nesse país tão caro". Eu fiquei ofendida pela falta de respeito aos meus padrões (cá para nós, altíssimos) de seleção de amigos, respirei fundo e pensei: deixa quieto, eu não sei como as coisas funcionam no país do colega, nem até onde isso que entendo como caráter duvidoso o ajuda a vencer na vida (ou até quando). Não mandei enfiar a poxa do dinheiro em lugar nenhum, não fui antipática com o endinheirado, mas fiz questão de deixar claro com meu olhar fulminante e voz baixa (para ser mais assustadora, claro;) "dá igual para mi". Sou phyna.

Enquanto eu escrevia esse post, o francês entrou na sala só de casaquinho com um penteado de Xuxa anos 80 só para mandar o chileno fazer uma música mais agradável pra embalar o sono dele "isso que você tá tocando tá insuportável, tá horrível". Não tava para mim, sentada ao lado. Para quem gosta de fazer de assuntos interpessoais guerras internacionais, taí um prato cheio. Eu prefiro não brincar disso.

Não acredito que consiga ser a melhor das juízas ao definir o que no universo é superior em tudo. Não acredito que essa pessoa exista. Acho muitas das análises que escuto precipitadas e um pouco idiotas. As coisas no mundo são, acima de tudo, diferentes. O que tá fora do Brasil pode ser bom pra baralho em muitos pontos, mas a gente ganha em outros... E tenho que conhecer o mundo inteiro ainda pra colocar algum lugar no topo. Aí é chão, menino. Mesmo quando conseguir essa façanha, vou espalhar meu julgamento e ele ainda não será verdade universal (pena, rs).


Sem essa de "Aaaah, Madrid/Paris/NYC/Conchichina é o melhor lugar do mundo...". Se algo em mim algum dia soar afetado, favor me esbofetear. Grata.




PS1: Só um exemplo do que a gente faz melhor em qualquer lugar da galáxia :)




Este vídeo foi produzido no meu agito de Bienvenida na casa nova. Haviam 6 brasileiros nessa festa... era meio que obrigação rolar sambinha.

PS2: As fotos são da minha nova área de atletismo. Porque eu sou si-nix-tra e corro no frio meixmo (essa foi pra Ju-loca-da-corrida ficar orgulhosa!).

PS3: Tem mais vídeos de Madrid in street concert aqui. Gravei um trio que toca harpa de mesa (não sei qual o nome do instrumento) e celo que é coisa de louco. Merece olhadela!

:*

8 de dezembro de 2010

O que (se) faz sentido agora

"Eu apenas queria que você soubesse
Que aquela alegria ainda está comigo
E que a minha ternura não ficou na estrada
Não ficou no tempo presa na poeira"

Gonzaguinha

Posso parecer precipitada, mas já tirei algumas conclusões do novo mundo liviano. Confira:

O que é bem diferente...
- A acetona é cheirosa.
- Os churros não têm recheio e são chamados de porras.
- A água da torneira é potável (seu psico vai resistir por dias a tomar sem fazer seu bucho sentir algum mal-estar, mas logo você desencana. Tenha poder sobre sua mente que seu corpo aguenta!).
- Para fazer as unhas das mãos, o mínimo que se paga é 5 euros (láaa onde o vento faz a curva, só pintar e lixar) e a média comum é de 30 euros (!!!). Para compensar, nos cabelereiros você pode pagar pra modelar ou cortar seu pelo por 10 euros no Marco Aldany, o Metarmofose/Werner daqui.
- As mulheres andam muito maquiadas (os olhos sempre marcados com delineador e rímel) e ostentam penteados bem esquisitos. Aqui, são elas que chegam chegando nos caras.
- Os galanteios pedreiros são algo tipo dois beijinhos no ar, como se a moça fosse uma cabrita, vaca ou qualquer coisa do curral dele (só pode ¬¬). Os menos da roça mandam um "uh lá lá" ou buzinam. Ou seja, tamo bem de pedreiragem.
- Talvez meu hairstyle tenha ajudado (RS), mas acho que madrileños não fazem pouco caso de estrangeiros... pelo contrário, são até bem receptivos. Só não inventa de mandar um "do you speak English?" numa vendinha, que aí vão te olhar torto mesmo e, caso they do, vão desaprender na hora só por indisposição. Tentar o espanhol me parece sempre uma boa ideia (até com chinos).
- As roupas são baratas. Fácil achar blusinhas por menos de 10 euros na Zara, H&M, C&A. A FNAC também é um arraso de preços mais acessíveis que os nossos (pero no mucho).
- Botas lindíssimas são mais baratas que Converses.
- O McDonalds tem 2 tipos de batatas fritas e o Burger King tem até maçã cortadinha como batata.
- As bananas são caras e todo mundo tem que por luvinha de plástico pra mexer nas frutas. Eu me atrevi a fazer diferente e fui fulminada pelo olhar de uma senhorinha (pra nunca maix).
- Pedintes ficam na porta do supermercado, de pé, bem vestidos, agasalhados, sorridentes e tals. Sim, pe-din-tes.
- As maiores ofensas são "me cago en tus muertos" e na "concha de tu madre". "Mierda" e "joder" são boas palavras pra manter no vocabulário também. X)
- Virtualmente, o hahaha é jajaja, jejejejeje, jijiji.
- Falam "vale" para tudo e "venga" até antes de se despedir. Nonsense, mas funciona assim.
 - Sem calefação não há vida... aquecida.
- Quem traz presente no Natal são os Três Reis Magos, não o Papai Noel (isso faz tão mais sentido pra mim).

Parece igual...
- O espanhol continua sendo a língua mais engraçada que rola (e ganha, cada dia mais, meu respeito e admiração).
- Piriguetes não sentem nem frio de grau Celsius negativos. Oi? O.o
- Existem brasileiros preguiçosos em todo o mundo. Sabe aquele tipo que vive há mais de 2 anos atendendo gente em Madrid e não sabem pronunciar um "¡Hola! ¿Qué Tal?" direito? Então.
- Orientais dominam a pirataria, o inglês domina nas músicas que passam nas rádios e eu domino o 3D... gealous, NOT YET.

O curso tá pesadíssimo e eu virei nerd de ir quase todo dia pra escola, no horário que não tem aula, pra fazer tarefas (é, UnB, você foi moleza perto disso aqui). Tive que me render ao PC, porque meus amados MACs não dão conta de computação gráfica direito. Quer dizer... dão sim, mas eu teria que gastar o triplo, no mínimo, pra fazer algo cabulosíssimo com eles. Logo, troca feita, com peso no coração e não no bolso.

Nevou só um pouquinho e eu virei a criança mais feliz do mundo quando senti os floquinhos caindo em mim. Tipo I'm siiiinging in the snooooow. Aaaah, laissez-moi! Quando nevar na real, eu posto vídeo de ambientes brancos como nos filmes.



Minha casa é uma lindeza. Meu quarto é grande e cabe uns 5 amigos espalhados por colchões no chão, caso estejam planejando caravana aí. ;) Além disso, o melhor alfajor do mundo está na esquina da minha rua e não há mau humor (por frio ou saudade) que resista a guloseima. Hogar, dulce hogar. VENGA!

Sinto falta de colocar havaianas e tomar sol deitada na rede, depois do almoço de arroz e feijão (que não são comuns por aqui) da minha mãe. E de andar com roupas leves, usar meus vestidos e sair de casa com menos de 3 camadas de pano. De ganhar dinheiro no fim do mês. De trabalhar não :D.
De rostinhos familiares e de abraços amáveis sim... y mucho.

Então é Natal, ho ho ho.
Contando os dias.