12 de julho de 2010

Ensaio sobre a quase cegueira

 "Just 'cause you feel it doesn't mean it's there."
Radiohead

A gente não consegue imaginar o que é ser cego, surdo, mudo, deficiente, até ser atingido por uma mazela destas. Eu dei o azar de ter um tal de protozoário passeando no meu sangue, que resolveu se alojar no meu precioso olho. O maldito esperou minha imunidade cair e ó, caiu na folia. Achou que era legal arrebentar vasos sanguíneos (na real, eu me imagino no lugar dele e acho que a brincadeira deve ser bonita. Tipo arrebentar balões cheios de tinta vermelha e tal) e chamou uns amigos pra fazer uma bagunça dentro de mim.

A primeira edição da festa toxoplasmática rolou em 2002, enquanto eu era pré-vestibulanda. Uma manchona tomou conta do meu olho e eu achei que ia ter a chance de usar uns óculos fashion e me sentir a mais nerd da galáxia. Mas não, a parada era mais séria: "você pode ficar cega, sabia, mocinha?". Ok, doutor Terrorismo, vamos ao tratamento. E dá-lhe antibióticos... Detonam seu estômago depois de 40 dias, mas resolvem.

Visão de volta, com manchas amenas. Tudo tranquilo e sereno... um chamuscado vez ou outra perceptível, principalmente se o céu for límpido. Ufa, estou salva. Ou quase.

Como todo ser vivo gosta é de festa, veio a segunda edição da algazarra protista, com mais força. Quando me dei conta da situação, fui encarar o doutor Terrorismo once again. Tive que ouvir "você perdeu parte da sua visão. Isso aí já era". Oi? Favor me encaminhar ao doutor Otimismo. Alguém deve ter algo mais agradável pra falar do meu olho. Não, ninguém tinha.

Tomei uma pancada de remédio de novo, emagreci, perdi força, fiquei enjoada, mais sensível que o normal, chorosa horrores toda vez que lembrava o já weras pronunciado... Com o tempo, o olho esquerdo voltou a enxergar sem mancha. Uma parada pretinha ainda toma parte da visão periférica e parece não querer sair nunca maix. Mas eu tô bem. Só enxergo cicatrizes quando os dias estão muito claros. Talvez, uma cirurgia resolva um dia... Não me preocupo com isso até que alguma mancha nova incomode. É preciso estar atenta.

O pior é que eu não sou única no mundo. Pouquíssima gente vê tudo como tem que ser visto. Na verdade, acho que todo mundo sofre dessas paradas e nem tchum para a existência de tratamento. As manchinhas que percebo estão aí espalhadas. Todo ser humano tem. Elas se manifestam de formas bem variadas. Resolvi a minha na base das dorgas, mano, mas sei que tem muita coisa errada no que vejo ainda, que é mal vista por conta da minha cabeça, e não de prozoário idiota. E como só tem gente doida nesse mundo, não vá pensando que tá imune ao dodói da visão embaçada, manchada ou defeituosa.

Uma das vantagens ter a visão em risco é saber identificar quando se tem algo de errado nela (além de valorizá-la, claro). Consertar a bagaceira toda é outra história.

Eu quero enxergar direito.

2 comentários:

. disse...

Eu sou míope de pai e mãe, além de ter no DNA alguns outros riscos.
Sempre me preocupei com a minha visão, desde que descobri que doenças podem ser transmitidas dos pais pros filhos etc etc etc aula minha avó me explicando.
O único médico que eu vejo com freqüência é o oftalmo e ele sempre me pergunta como vai o meu estudo de polonês.

E isso vale pra minha outra visão.
Morro de medo de ter glaucoma e ir perdendo a vista, enxergando cada vez menos.
Oftalmo três vezes por semana!

Renata Reps disse...

Pode ter certeza que, mesmo com protozoário, você enxerga melhor do que muita gente, amiga.
Te espero para enxergarmos juntas no Anima Mundi.

Beijos!