27 de abril de 2010

Pelo direito das reservas

"Parece que foi ontem, eu fiz
aquele chá de habu
pra te curar da tosse do chulé,
pra te botar de pé"

Sétimo Andar - Los Hermanos





Não adianta. Por mais shining que a pessoa esteja ou seja, o sapateiro da quadra não vai olhar pra fora da barraquinha. Ele simplesmente se fechou no mundo de 2 metros quadrados e é isso. Pronto.

O que? Achou ruim? Vá cuidar da sua vida e deixe o homem com os sapatos dele. Tem gente que conversa com vegetais, tem gente que bate papo com bicho. No final das contas, todo mundo a-do-ra ter seus botões para tagarelar indefinidamente. E dá-lhe twitter como muro de lamentações e campanhas pela preservação dos nossos monólogos eternos, mesmo que internos. Eis-me aqui, escrevendo no meu diário virtual mais uma vez. Difícil alguém comentar, mas quando rola, fico toda saltitante.

Na minha cabeça louca fica a crença de que todo mundo quer ser ouvido/lido/percebido/sentido. E saber que o sapato compreende o drama da última noite, e que a inquietude do seu peixinho enfezadinho do oceano (oi, eu sou a Dori) é por conta do mesmo chilique do qual você foi vítima durante o dia, faz qualquer um se sentir melhor. Parece que se divide o peso das paradas... elas ficam mais leves. Este é o poder do olhar amigo de compreensão e da presença, mais do que tudo.

Eu resolvi entreter o sapateiro com 7 pares dos amigos dos meus pés. Estavam todos agrupados no fundo do armário e adoraram o passeio. Há tempos ninguém trocava uma ideia com eles. Bastou apresentá-los ao senhorzinho, para ver um rosto iluminado. Brilho nos olhos (de sapateiro para os sapatos, claro). Por ser dona, consegui, com muito esforço, 3 bom-dias e até um "bonitinho esse aqui, né? Eu fiz muitos projetos assim quando era mais novo, no Rio". Nada mais.

Cri cri.

Foi aí que eu me toquei que meu esforço todo era pro cara se abrir e olhar pra fora, tipo pra mim. Egocêntrica-carente-da-poxa na alta assim, sabe? Me achando a mina que faz o chá milagreiro da letra dos Los Hermanos. Como se o carinha precisasse interagir com gente, cumprimentar os transeuntes. Bullshit! Ele tava diboua lá... mas ô, como a reserva em excesso me incomoda! Quando neguim se fecha demais já identifico o ser misterioso, daquele tipo indecifrável, que faz a gente pensar "aí tem coisa! ah, tem!". Tenho medo.

Depois de resgatar o que era meu, agora só respiro fundo e aceito. Queria sim mais bom-dias... porque é difícil eu sair de casa cedo do dia sem o tal do keep walking and smiling. Mas aí, cada um com seus esquemas de vida. Eu tenho os meus também. Ah, como tenho... (oxi, sai).

E entre o senhor que fica feliz por ter sapato para conversar no cubículo sem enxergar pessoa-ninhuma e a senhora hipocondríaca mal-humorada da língua venenosa incansável, na espera paciente pela consulta de 2 minutos, eu fico com o primeiro.

Eu amo contato, mas odeio gastar paciência exageradamente. Tudo demais cansa, né?

Ok... Muita palavra já.
Fala comigo?

12 de abril de 2010

Sobre a loucura de todo ser

"I'm just one of those ghosts
Travelling endlessly
Don't need no road
In fact they follow you
And we just go in circles"

Paramore





E quando ela perdia o chão, caminhava indefinidamente, sem rumo, em busca de terra firme ou de um canto para se esconder. Um único desejo impossível: amigo mundo, pare de girar por poucos minutos, até que eu me sinta recomposta e preparada para enfrentar o que for.

Às vezes eu me acho tão louca. Mas sei lá... tem coisa que é só humana. Cada um foge dos problemas do seu jeito. Cada um recupera a coragem para lidar com eles a sua maneira. Cada doido...

Que venham. Estou caminhando todo dia agora... e firmando bem meus pés no chão. Dia após dia fica mais difícil perdê-lo de vista.