21 de outubro de 2009

Achados de uma perdida


"Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?"

 Retrato - Cecília Meireles



É como se o cérebro flutuasse no formol, dentro do potinho do laboratório do jardim de infância. Minha cabeça é o potinho. E o cérebro lá, boiando, mexendo de um lado pro outro, envolto por qualquer outro líquido conservante... acuado vez ou outra como peixinho no aquário, que sabe que o cutucão sempre vai soar mais ensurdecedor do que de fato é. Ele prossegue balançando conforme o movimento do corpo... Corpo que não reconheci, que não vi se transformar. Que perde peso a cada noite mal dormida e que começa a não encher bem as calças. Incômodo.

Pareceu tudo inadequado. A roupa, o corpo, o cérebro boiando. Quem era mesmo? Piloto automático ligado. Pode encher o tanque, por favor? Medo de atolar na lama do caminho molhado. Incapaz de dominar pensamentos - nem os dela, quem dirá dos outros. Trabalha, trabalha. Respira, dorme, muda o horário. Rotina. Sorria, você está sendo filmada. Abalável, tentando permanecer impecável. Sonha menos, luta mais. Sempre quer mais. Insaciável ou insatisfeita? Quero ser mais.

Pra onde tudo vai mesmo? Onde está minha carteira? Tem um bocado de documento lá... algo deve me identificar. Não a carteirinha de estudante 1, nem a de estudante 2 - a missão. Talvez a de motorista: mulher que dirige bem. Toda destemida, o pai falaria. Ainda não sei se é crítica ou elogio. Não sei se é suficiente pra me definir. Espero que não. Não, não é.

Identidade. Vontade de chorar. Eu estou exatamente onde eu queria estar. E agora? Algumas porções do que há de mais fantástico por dia e pronto, está medicada. Pode chamar de drogada, viciada. Necessita ser bem tratada. Ou só de um bom trato.

Dor de cabeça. Dorme, filhinha. Sentimentos e pensamentos suspensos. Descansa, coração, e bate em paz.
Amanhã é outro dia. Em breve, eu me acho.

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