5 de março de 2009

Um é pouco?

"Mas não, não vá agora
Quero honras e promessas

Lembranças e histórias...
Somos pássaro novo

Longe do ninho"

Renato Russo


Ela pôs a trilha sonora da tarde e voltou caminhando pela sombra. Sapatinho baixo lilás cheio de furinhos, saia de bolas coloridas, blusinha de alça preta com babados, cachos soltos, franjona presa com flor roxa de pano. Óculos escuros gigantes, bolsinha preta na mão e fones brancos no ouvido.

Andava no ritmo, sincronizava passos, forçava o balanço da saia e do cabelo. Tão bom sentir o vento na nuca. Desta vez, sem insegurança pela cabeleira solta. Que se armasse como sempre! Estava voltando para casa mesmo... a juba não era uma preocupação.

Levanta o braço para catar algumas das folhinhas na árvore. Ah... quantos bem-me-quer e mal-me-quer sempre rendiam. E como se soltam fácil, logo dá pra encher a mão e brincar de jogar pra cima. Iuhu! E vão cair todas levemente, como confete natural, fazendo festa ao redor. Bagunça extra sobre os cachos, a roupa, o chão...

Distraída, no clímax da folia solitária, esquece que está atravessando uma rua movimentada. "Oh meu Deus!", duas senhoras gritam pra despertar a jovenzinha da hipnose momentânea. Esqueceu de olhar pros dois lados, por um triz um acidente não aconteceu. Desculpa, moço... o erro foi meu. "Que isso, morena... não foi nada". Sorrisos confirmam o acordo de paz. Ok, then. Continuemos inabaláveis, faltam apenas 2 quarteirões.

Ao chegar no portão, o show público acaba. Merece puxadinha na saia, virada pra um lado, pro outro. Sim, o porteiro já te viu, chega de dancinhas, pode entrar.

Sobe pelo elevador fazendo alongamento. Sétimo andar. Localiza as chaves perdidas na bolsa e abre sua própria porta. A casa tá vazia, aproveita pra cantar com todo o fôlego.

Quarto branco de alma colorida... cama pedindo seu corpo. Ah, se joga vai. Sem perder o ritmo, estica... vale enrolada no lençol, com o último movimento da aula de tecido e descida atrapalhada da cama ao chão. Pose de bailarina desengonçada. Cambalhotas até suar. Nóssinhora, que cidade quente. Ventilador pedindo espaço no momento divertido. Genial, mocinha! Veeeeeento... que faz a saia subir. As bolinhas quase se soltam do tecido. Pulinhos, caretas... pronto, cansou.

Deita e relaxa. Respirando fundo, para e pensa. Um ano...

Talvez não pudesse ser melhor. Super experiência, hein? Vai crescer muito. É, nunca se sabe. Diverte-se com o que veste, caminha saltitando, se distrai com folhinhas da infância, quase é atropelada nas esquinas, chora de saudade da família com frequência, sente o coração saltitar ao ouvir a voz daquele que identifica como príncipe, faz acrobacias desajeitadas na cama e ainda quer abraçar o mundo... e voar como 'passarinha' (porque borboleta vive pouco).

Suspira. Um ano... quem diria...