4 de setembro de 2008

Um brinde ao semestre


"... tudo que pode ser imaginado pode ser sonhado, mas mesmo o mais inesperado dos sonhos é um quebra-cabeça que esconde um desejo, ou então
seu oposto, um medo. As cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as suas regras sejam absurdas, as suas perspectivas enganosas, que todas as coisas escondam uma outra coisa. (...) De uma cidade não aproveitamos suas 7 ou 70 maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas."
As cidades invisíveis - Ítalo Calvino



[aperta play aê!]

Hoje completo 6 meses no Rio: iei! Contabilizando, sou quase uma carioca: já senti a emoção de ver o flamengo jogando no Maraca, fui assaltada ao meio dia do domingo num bairro nobre, fui ao chão (chão chão chão!) pra não ser a achada por balas num tiroteio da favela próxima, as ondas já levaram parte do meu biquiní (e continuam a me levar quase sempre, lógico), já comprei um cavaquinho querendo me tornar uma chorista da Lapa, fui a shows muito bons pagando quase nada, virei uma atleta do remo, me acostumei a fazer fotossíntese em Ipanema regada a matte e bixcoito grobo, esbarrei em celebridades sem tietar (ok, isso tem que exercitar, não é fácil pra quem é da roça cruzar com Pedro Cardoso e Camila Pitanga sem querer apertar a mão e dizer "cara, sou sua fã"), aprendi a falar "surreal" e "caído" como um ser daqui (só não dá pra forçar nox ixquemas sinixtros, e variações chiadas demais... sou brasiliense demais pra me render a isso), contemplei autênticos meninos do Rio que "morreriam fácil" (mas não matei nenhum da espécie), conheci muita gente malandra, muita gente prepotente (do tipo "ô minha filha" de ser), e muita gente boa de verdade, identifiquei família Bras-ilha e fiz deles os meus heróis, curti ó-te-mas nights cariocas sempre que possível e, ao ver o Cristo se escondendo nas nuvens pela minha janela, fui ao shopping (como todo carioca que vira candango em tempos chuvosos) ou simplesmente não sai das cobertas.

E ainda vou curtir asa delta da pedra da Gávea, fazer trilha no Pão de Açúcar, dar a volta completa correndo na Lagoa, ter aulas de circo e música (não dá pra aprender cavaquinho por osmose), dominar as ondas, brincar de ser animadora de verdade e... ai ai. Os projetos cresceram e as idéias estão fervilhando.

O fato é que existe mais um bocado de coisas que quero fazer antes de deixar essa cidade. Sim, ir embora. Isso mesmo, não quero ficar... Tudo bem que estou numa fase meio tensa, mas não acredito que essa vontade de me sentir segura vai passar. E sério, não quero e nem vou me acostumar com isso. Acho que quem já viveu tranquilo e sereno vai concordar: a cidade é maravilhosa, mas está longe de ser um bom lugar pra se levar a vida. Não pela saudade gigante que me bate sempre que passo muito tempo sem falar com a família direito, muito menos por não ter ainda aquele ombro familiar pra encostar e chorar tudo que acumula mensalmente... A falta disso no dia-a-dia é punk de aguentar, mas acho que dei uma crescidinha considerável durante esses seis meses e sei que tenho força (e uma reserva de chocolate na gaveta) pra me manter sem essas regalias. E com'on: internet é coisa linda de Deooos! Ameniza muito.

O problema é aquilo que todo carioca assume: não sei se há jeito pra essa violência gratuita e constante. Eu ainda acho bizarro considerar arrastão uma coisa normal. Ah, fala sério... isso não acontece na minha terra não. E tenho certeza que em muitas outras também não! Em pensar que isso é só uma manifestação leve das paradas estranhíssimas que acontecem aqui. Não, amiguinho, eu acredito que você tá armado, pode levar. Eu, definitivamente, não quero pagar pra ver... Quero continuar realizando meus sonhos e acredito que o Rio vai ser só uma ponte pra me levar a lugares mais interessantes. Daquelas pontes lindíssimas, toda enfeitada e cheia de beleza natural, gente bonita e música boa, mas que esconde, ali no cantinho, um ser mal-resolvido que observa esperando um momento de distração. C'est bizarre!

Apesar dos pesares, tô feliz. Sou grata a Deus pelo sustento e provisão até aqui... no geral, o Rio me acolhe bem e já é uns 3 capítulos bem especiais da história da minha vida. Vai render mais, eu sei.

Mas chega de tagarelar. Eu tenho planos de futuro, do A ao Z, e não pretendo compartilhar. Essa listinha tem crescido indefinidamente e o elemento surpresa continua sendo o que há de mais atraente em toda boa história. Tem tanta coisa curiosa e inesperada acontecendo que eu não faço a mínima idéia do que vai ser de mim daqui há 2 meses. Eu sei que vai dar certo... isso me aLivia. :o)

Muito obrigada a todos queridos que estão acompanhando e torcendo a distância. Cada dia eu descubro em mim partes de muitos de vocês... Amo demais e sinto saudades sinceras.

Tim tim!

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